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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Um dos nossos projetos em 2min

   Ano passado, nosso grupo de pesquisa teve a honra de participar como pano de fundo do projeto Geração Futura Universidades Parceiras. Trata-se de uma iniciativa do Canal Futura para estudantes da área da comunicação. O Roger Gritti, estudante de Jornalismo da UPF, foi selecionado para representar a nossa Universidade e ganhou a chance de participar de diversas oficinas de audiovisual na sede do Canal Futura. Como tarefa, ele precisou desenvolver um vídeo, desde o processo de roteiro até a finalização, e o tema deste vídeo foi um projeto de pesquisa desenvolvido na nossa Universidade.

  Então o Roger me procurou pois o projeto em questão tem bastante elementos visuais que ele poderia aproveitar (equipamentos, modelo animal, etc...). Gravamos o vídeo e o resultado do trabalho do Roger pode ser conferido nos intervalos da programação do Futura, ou logo abaixo. Além desta experiência muito legal, eu também "lucrei" com um videozinho super bem produzido que fala um pouco sobre o nosso trabalho.


 Sou muito suspeita pois eu acho que envolver-se em projetos de pesquisa é parte fundamental de uma experiência universitária completa. E aqui na UPF nós temos muito espaço para produzir conhecimento. Por isso, você, aluno que me lê, experimente a Iniciação Científica, pois isso pode abrir muitas portas!

  Quanto aos resultados deste projeto, em breve eles aparecem por aqui, pois estamos em fase de finalização dos artigos.

  Parabéns Roger pelo trabalho! E também às minhas bolsistas Jéssica e Patrícia, que tocaram este projeto de pesquisa, pois vocês são as verdadeiras protagonistas do vídeo.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Silimarina, um possível aliado contra a hepatotoxicidade



    O ano está terminando e com ele chegam as apresentações dos trabalhos de conclusão de curso. Este é um período muito especial pois é um dos momentos em que o aluno tem a oportunidade de se envolver com um trabalho de pesquisa, testar suas hipóteses e defender suas conclusões perante a uma banca. É sempre muito bom quando os alunos compreendem que podem tirar o máximo proveito desta oportunidade, que vai dar trabalho de qualquer jeito, e se empenham em fazer bonito. Então hoje, vou falar de um trabalho que começou como um trabalho de conclusão da aluna Elza Calegari e hoje encontra-se publicado na revista International Journal of Pharmacy and Pharmaceutical Sicences.

    Quando a Elza me procurou para orientar o TCC dela ela já sabia com o que queria trabalhar: a hepatotoxicidade do metotrexato, observada nos regimes de tratamento para artrite reumatoide. Gostei muito desta sugestão, pois além de ser minha área de interesse, ela estava muito motivada com o assunto por ter presenciado este tipo de reação tóxica em uma pessoa próxima.

  A artrite reumatoide é uma doença inflamatória crônica das articulações que faz com que o paciente tenha dores nas articulações inflamadas. Uma das alternativas terapêuticas para esta doença é o metotrexato, um fármaco que apresenta como efeito adverso a hepatotoxicidade em pacientes que excedem doses de 20mg/semana. Pacientes com artrite reumatoide fazendo uso desta medicação frequentemente a utilizam cronicamente, por longos períodos e doses elevadas, tornando-se mais suscetíveis a este efeito adverso.

 


Silybum marianum
   Então, no TCC da Elza, utilizamos como modelo animal ratos que receberam metotrexato em um regime simulando um tratamento crônico, para desenvolvimento de hepatotoxicidade. Como protetor, testamos a silimarina, que é isolada da planta cardo mariano (Silybum marianum). Este composto nos pareceu promissor devido às suas propriedades antioxidantes e antiinflamatórias, que fazem com que apresente bons resultados na proteção frente à toxicidade de compostos hepatotóxicos. E de fato, neste trabalho, a silimarina foi capaz de proteger parcialmente os danos provocados pela administração crônica do metotrexato, como a peroxidação lipídica hepática. No artigo publicado, apresentamos todos os resultados e discutimos um possível mecanismo envolvido nesta proteção parcial. Interessados em consultar a publicação, ela se encontra disponível aqui.

  A silimarina já é um produto disponível comercialmente na forma de fitoterápico. Fitoterápicos são medicamentos obtidos com o emprego exclusivo de matérias ativas vegetais, com eficácia e segurança conhecidas, como qualquer medicamento. Não confundir jamais fitoterapia com homeopatia, que adota princípios bem diferentes para fundamentar seus tratamentos. Existe um material muito didático e interessante desenvolvido pelo Ministério da Saúde com esclarecimentos sobre os fitoterápicos, que se encontra disponível aqui.




segunda-feira, 11 de maio de 2015

Purificadores de ar a base de ozônio: eficácia e segurança

   O ozônio é um composto que apresenta a ambiguidade de ser considerado vilão ou mocinho em determinadas condições. Ao mesmo tempo que são feitas campanhas para preservar a camada de ozônio, este composto também pode ser considerado um poluente (é tratado como tal pela nossa legislação do CONAMA, Resolução 003/90). E apesar de ser um poluente, alguns "purificadores de ar" realizam a sua função através de geração de ozônio. 
   Soou estranho purificar o ar com um poluente? Para muita gente também! Então hoje vamos falar sobre um projeto que tive o prazer de participar, que foi coordenado pela Prof. Charise Bertol, onde se testou a eficácia e a segurança destes purificadores de ar.

  Primeiramente, algumas definições:
 O ozônio é um gás  colorido, em tons de azul, composto por 3 moléculas de oxigênio. Ele se forma quando as moléculas do oxigênio (O2) se rompem pela ação da radiação ultravioleta do sol. Os átomos separados podem se combinar novamente com outras moléculas, gerando o ozônio (O3).
   A atmosfera tem várias camadas, conforme demonstrado na figura abaixo. A camada de ozônio fica localizada na estratosfera, em uma altitude de 16 a 30km. Esta camada serve para absorver as radiações ultravioletas que vem do sol.


Camadas da atmosfera. Fonte: http://www.mundoeducacao.com/quimica/equilibrio-quimico-na-camada-ozonio.htm


Camada de ozônio na estratosfera, que atua como um escudo para as radiações ultravioletas do sol. Fonte: http://www.ibflorestas.org.br/noticias/584-16-de-setembro-dia-internacional-de-protecao-da-camada-de-ozonio.html

   Já na troposfera, que é a camada mais próxima da superfície da Terra, o ozônio é considerado um poluente secundário. Ou seja, é formado a partir de outros poluentes atmosféricos, como o dióxido de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis na presença de radiação solar. O ozônio da troposfera contribui para o agravamento de crises de asma, bronquites e doenças respiratórias no geral. 
   Existem no mercado "purificadores de ar geradores de ozônio". São equipamentos pequenos, portáteis (como o da figura abaixo) e que prometem melhorar a qualidade do ar.


Exemplo de purificador de ar gerador de ozônio.

   O fundamento da utilização do ozônio como purificador de ar se deve ao seu efeito oxidante. Os fabricantes informam que estes purificadores produzem íons que removeriam micro-organismos do ar. O mecanismo desta ação se fundamenta no ataque do ozônio às membranas e paredes celulares, sendo capaz de causar uma situação de stress oxidativo e consequentemente, o rompimento das células dos patógenos. Porém, alguns autores questionam esta atividade. Esta corrente defende que, em concentrações seguras para os seres humanos o ozônio seria ineficaz como descontaminante ou purificador de ar. Em concentrações acima das permitidas, a eventual purificação atingida não se justificaria porque os efeitos negativos do ozônio para a saúde seriam mais prejudiciais do que o benefício conseguido.
  
  Então, primeiramente, vamos aos nossos resultados relativos à eficácia destes purificadores de ar. Posteriormente, voltaremos à questão da segurança:

   Nós testamos o efeito de um purificador de ar (marca Brizzamar) comparando os micro-organismos cultivados em presença do purificador e na ausência do mesmo. Os resultados mostraram que após 1 h de uso do purificador de ar gerador de ozônio, houve uma redução significativa dos fungos presentes no ambiente (72.22%). Após 2 e 3 h de funcionamento do purificador, a redução atingiu 83.43%  e 89.71%, respectivamente. Com relação às bactérias presentes no ar, observou-se uma redução de 34.75% após a primeira hora de funcionamento do equipamento, 74.82% após 2 h e 78.02% após 3 h. O modelo experimental utilizando dois diferentes vírus (BoHV-1 - vírus da herpes bovina e HSV-1 Herpes simplex virus) evidenciou que após 3 h de exposição ao ozônio houve uma redução acima de 90% nos dois vírus utilizados. E nestas condições, a eliminação dos vírus aconteceu sem efeitos citotóxicos para a célula hospedeira. 

Conclusão: Houve uma melhora na qualidade microbiológica do ar após a exposição ao purificador de ar gerador de ozônio. Os melhores resultados foram obtidos após 3 h de funcionamento, conforme recomendado pelos fabricantes.

 E a segurança do uso?

  Como o ozônio é um poluente oxidante, existem níveis considerados seguros de exposição. No ambiente de trabalho, por exemplo, a OSHA (Occupational Safety and Health Administration)  recomenda um limite de 0.1 ppm de ozônio para uma jornada de trabalho de 8 h. No Brasil, o Ministério do Trabalho, através da NR 15, fixou em 0.08 ppm de ozônio como o limite máximo de exposição em regime de até 48 h semanais.
    Nos nossos estudos, a concentração do ozônio no ambiente foi medida e sempre ficou abaixo de 0.05 ppm, o que sugere a segurança do purificador. Este dado é importante porque depõe contra o possível efeito cumulativo do ozônio. Então, para confirmar este achado, colocamos o purificador gerador de ozônio em uma caixa até que ela se encontrasse saturada de ozônio (concentração de ozônio após saturação da caixa = 3.7 ppm). Cinco minutos após desligar o equipamento, os níveis de ozônio reduziram drasticamente (50%) e após 30 min, a concentração de ozônio na caixa era inferior a 5%. 

   Ainda assim, realizamos ensaios in vivo para verificar os possíveis efeitos agudos e crônicos do ozônio, especialmente no trato respiratório. Para isso, ratos foram expostos por 15 dias a uma exposição ao purificador de ar ligado por 3 h/dia (conforme recomenda o fabricante) ou 24 h/dia (uma situação extrema). Outro grupo foi exposto por 28 dias à exposição ao purificador de ar ligado por 3 h/dia ou 24 h/dia. Os resultados foram comparados com animais mantidos sem qualquer exposição ao gerador de ozônio (controles). Os parâmetros avaliados foram a massa relativa dos órgãos, alterações macro e microscópicas dos órgãos, parâmetros hematológicos e marcadores de stress oxidativo sistêmico, além de ensaios de mutagenicidade. 
      Não houve alterações significativas nos animais expostos ao ozônio em nenhuma condição quando comparado aos animais controles.

Conclusão: Neste modelo de exposição, o purificador de ar gerador de ozônio pode ser considerado seguro.

    Se você quiser saber mais sobre estes estudos, aqui você encontra o artigo do trabalho com fungos e bactérias e aqui você encontra o trabalho com os vírus. Os ensaios de avaliação da qualidade microbiológica do ar foram realizados como Trabalho de Conclusão de Curso das alunas Greicy Petry, Karoline Vieira e Angelica Vilani, orientadas pela Prof. Charise Bertol. A avaliação da toxicidade foi realizada pela aluna Larissa Cestonaro e encontram-se submetidos para a publicação. Estes trabalhos foram desenvolvidos no âmbito do projeto Sentinela - UPF Tec.



terça-feira, 24 de março de 2015

O uso de celular e sua influência na qualidade espermática

 Recentemente, finalizamos mais uma edição da nossa Especialização em Análises Clínicas e Toxicológicas da Universidade de Passo Fundo. Entre os trabalhos de conclusão de especialização produzidos pelos alunos, o trabalho da Lidiana Biasi, orientado pelo professor Luciano Siqueira e que tive o prazer de ser membro da banca avaliadora me chamou  muito a atenção. A Lidiana permitiu que eu contasse um pouco dos resultados do trabalho dela aqui no blog, e por isso, lá vai:

   O objetivo do trabalho foi verificar se existia alguma correlação entre alguns hábitos e a qualidade espermática, verificada através do espermograma, um exame que avalia a vitalidade, motilidade, concentração de espermatozoides e morfologia. Participaram do estudo 32 homens com idades entre 21 e 47 anos. Aplicou-se um questionário aos voluntários que aceitaram participar da pesquisa onde se questionou sobre os seguintes hábitos: tabagismo, ingestão alcoólica, hábito de carregar o telefone celular no bolso da calça e utilizar notebooks no colo.

   Através de análise estatística de correlação de Spearman, os resultados demonstraram que o hábito de carregar o celular no bolso da calça apresenta uma correlação fraca (-0,36) mas significativa com a diminuição dos espermatozoides.  O que isso significa: que foi possível verificar que os homens que declararam carregar o celular no bolso da calça apresentaram uma contagem inferior no número de espermatozoides quando comparados com os valores dos homens que não tinham este hábito. Particularmente acredito que se aumentássemos a amostra, o valor da correlação também aumentaria.
  
  E qual seria o motivo do celular interferir com o número de espermatozoides? 
   Existem dois possíveis mecanismos: um deles, é o efeito das radiações sobre o núcleo das células de Leydig, que podem levar a danos no DNA e diminuição da síntese de testosterona. As radiações dos celulares operam entre 400 e 2000 MHz, dependendo do modelo. O outro mecanismo é o efeito térmico destes aparelhos uma vez que estas ondas eletromagnéticas produzem calor. Explico: para uma boa síntese de espermatozoides, a temperatura dos testículos deve estar por volta de 34ºC. A temperatura do corpo humano gira em torno dos 36-37ºC (você sabe disso, pois quando mede a sua temperatura para saber se está com febre, utiliza este parâmetro como o normal). Por isso que os testículos encontram-se localizados em uma estrutura externa ao organismo (ao contrário do que acontece com os ovários femininos), já que eles não são bons dissipadores de calor e trabalhar a uma temperatura corporal seria deletério para a sua função reprodutiva. Nesta mesma linha de raciocínio, o hábito de carregar o notebook no colo também foi avaliado, mas neste parâmetro não houve correlação significativa (embora existam outros estudos que conseguiram provar esta associação). 

  É claro que existem alguns vieses neste estudo, como o fato dos hábitos serem avaliados por questionários, e muitas vezes as pessoas omitem alguns fatos e também a existência de inúmeros outros fatores que poderiam influenciar na espermatogênese. Mas de qualquer maneira, é perturbador que exista essa correlação (ainda que fraca) com o uso de celular.  Pelo sim, pelo não, sugere-se que os homens que estão tentando ter filhos minimizem a exposição a estas radiações.

  Conclusões semelhantes já foram obtidas por outros pesquisadores, inclusive com amostras maiores que esta. Ainda assim, os cientistas são cautelosos ao olhar para estes resultados e concluir que o celular de fato prejudique a fertilidade (e eu peço a você que me lê, que também seja cauteloso e não surte com este post). De qualquer maneira, todos concordam que estes resultados merecem nossa atenção e que mais estudos são necessários para esclarecer estes efeitos. Se você se interessou pelo assunto, consulte também esta reportagemou esta ou ainda pode consultar esta lista de artigos recentes que avaliaram estes aspectos.

  Meus alunos, há muito trabalho a ser feito! Vamos pesquisar?

  


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A triste realidade da dependência ao álcool. Verifique se você está passando do ponto!


   A dependência de álcool é um grave problema de saúde pública. Apesar de ter um quadro clínico bem estabelecido, muitas vezes o diagnóstico é difícil. Sabe-se que, frequentemente, os primeiros contatos com o álcool acontecem no início da adolescência, em contextos onde o uso abusivo é glamoroso, encorajado pelos amigos e algumas vezes pela própria família. A detecção de casos iniciais é um desafio pois medidas educativas podem evitar repercussões individuais e desfechos sociais graves.

   No contexto universitário, o ambiente de integração com a turma e a pressão dos exames e provas também favorecem o consumo abusivo do álcool. Neste sentido, a farmacêutica Marina Pelicioli, no âmbito do seu trabalho de conclusão do Curso de Farmácia, orientada pela professora Cristiane Barelli, avaliou o padrão de consumo de bebidas alcoólicas entre universitários de cursos da área de saúde. A pesquisa contou com a participação de 619 alunos que responderam  entrevistas em questionário eletrônico enviado por e-mail a cada um dos estudantes sorteados. 
  O consumo de álcool foi avaliado pelo Teste de Identificação de Distúrbio de uso do Álcool (AUDIT), um questionário validado e reconhecido internacionalmente que você também pode responder pois ele está disponível no fim do post. Os resultados desta pesquisa demonstraram que 85% destes estudantes consomem álcool. A frequência de consumo variou de 2 a 4 vezes no mês (46,9%) a 1 vez por mês (40%). O padrão de consumo do álcool avaliado como de baixo risco foi 77,1%; mas 2,7% dos estudantes apresentaram um padrão de consumo considerado nocivo e de provável dependência, predominando a ingestão de fermentados (41,1%) e destilados (23,2%).

    O dado mais alarmante foi a prática do Beber Pesado Episódico (BPE), que foi constatado em mais da metade dos estudantes (51,6%). Este dado é bastante elevado comparado a outros estudos neste tipo de população, cuja média de ocorrência gira em torno dos 20% (maiores informações sobre estes outros estudos você encontra aqui, aqui,  aqui e aqui).


  Mas afinal, o que é BPE?

  O Beber Pesado Episódico (BPE) ocorre quando há o consumo de 5 doses ou mais de bebidas alcoólicas em uma única ocasião independente da frequência de consumo. Ou seja, o estudo demonstrou que 51,6% destes universitários não consomem álcool com grande frequência, mas, quando consomem, ocorre de forma exagerada. Ainda, foi verificado que as características que mais se associaram ao consumo de álcool foram ser solteiro, do sexo masculino e frequentar festas semanalmente.


Fonte: http://comidanarede.com.br/bebidas/consequencias-abuso-alcool/


   O trabalho da Marina foi premiado duas vezes, evidenciando a relevância desta discussão. Mas e você? Como está o seu consumo de álcool? Verifique se você pode ser considerado dependente de álcool segundo os critérios da 5º Versão do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Americana de Psiquiatria:

Marque as alternativas vivenciadas em um período de 12 meses:

1. O álcool é consumido em maiores quantidades ou por um período maior do que o pretendido.
2. Desejo de diminuir ou interromper o uso da substância sem sucesso.
3. Muito tempo é gasto em atividades necessárias para obtenção da substância, na utilização ou na recuperação dos seus efeitos.
4. Fissura ou craving: um forte desejo ou urgência para usar o álcool.
5. Prejuízos importantes nas atividades ocupacionais, domésticas ou acadêmicas em virtude do uso da substância.
6. Permanência do uso apesar de ele provocar problemas nas relações pessoais.
7. Abandono de atividades sociais, ocupacionais ou recreativas para o uso de álcool.
8. Manter o uso apesar do risco associado.
9. Manter o uso apesar de ter um problema físico ou psicológico, sabidamente causado ou exacerbado pelo álcool.
10. Tolerância: necessidade de quantidades progressivamente maiores de álcool para adquirir os efeitos desejados ou acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade.
11. Abstinência: síndrome de abstinência característica ou consumo de álcool ou outra substância relacionada (como medicamento calmante) com a finalidade de aliviar ou evitar os efeitos da abstinência.

  A presença de 2 ou mais destes critérios em um período de 12 meses é suficiente para diagnosticar dependência do álcool. A classificação da gravidade é realizada da seguinte forma:
Dependência de álcool leve: 2 a 3 sintomas em um período de 12 meses
Dependência moderada: presença de 4 a 5 sintomas em um período de 12 meses
Dependência grave: presença de 6 ou mais sintomas em um período de 12 meses

  Agora o AUDIT - TESTE PARA IDENTIFICAÇÃO DE PROBLEMAS RELACIONADOS AO USO DE ÁLCOOL


Assinale o número corresponde a sua resposta e ao final, some todos os números assinalados.

1. Com que frequência você consome bebidas alcoólicas?
(0) Nunca [vá para as questões 9-10]
(1) Mensalmente ou menos
(2) De 2 a 4 vezes por mês
(3) De 2 a 3 vezes por semana
(4) 4 ou mais vezes por semana

2. Quantas doses alcoólicas você consome tipicamente ao beber?
(0) 0 ou 1
(1) 2 ou 3
(2) 4 ou 5
(3) 6 ou 7
(4) 8 ou mais

3. Com que frequência você consome cinco ou mais doses de uma vez?
(0) Nunca
(1) Menos do que uma vez ao mês
(2) Mensalmente
(3) Semanalmente
(4) Todos ou quase todas os dias


*Se a soma das questões 2 e 3 for 0, avance para as questões 9 e 10


4. Quantas vezes ao longo dos últimos 12 meses você achou que não conseguiria parar de beber uma vez tendo começado?
(0) Nunca
(1) Menos do que uma vez ao mês
(2) Mensalmente
(3) Semanalmente
(4) Todos ou quase todos os dias

5. Quantas vezes ao longo dos últimos 12 meses você, por causa do álcool, não conseguiu fazer o que era esperado de você?
(0) Nunca
(1) Menos do que uma vez ao mês
(2) Mensalmente
(3) Semanalmente
(4) Todos ou quase todos os dias

6. Quantas vezes ao longo dos últimos 12 meses você precisou beber pela manhã para poder se sentir bem ao longo do dia após ter bebido bastante no dia anterior?
(0) Nunca
(1) Menos do que uma vez ao mês
(2) Mensalmente
(3) Semanalmente
(4) Todos ou quase todos os dias

7. Quantas vezes ao longo dos últimos 12 meses você se sentiu culpado ou com remorso depois de ter bebido?
(0) Nunca
(1) Menos do que uma vez ao mês
(2) Mensalmente
(3) Semanalmente
(4) Todos ou quase todos os dias

8. Quantas vezes ao longo dos últimos 12 meses você foi incapaz de lembrar o que aconteceu devido à bebida?
(0) Nunca
(1) Menos do que uma vez ao mês
(2) Mensalmente
(3) Semanalmente
(4) Todos ou quase todos os dias

9. Você já causou ferimentos ou prejuízos a você mesmo ou a outra pessoa após ter bebido?
(0) Não
(2) Sim, mas não nos últimos 12 meses
(4) Sim, nos últimos 12 meses

10. Algum parente, amigo ou médico já se preocupou com o fato de você beber ou sugeriu que você parasse?
(0) Não
(2) Sim, mas não nos últimos 12 meses
(4) Sim, nos últimos 12 meses


  Some todos os números assinalados e interprete segundo o quadro abaixo:

Pontuação
Padrão de consumo de álcool/
Zona de risco
0 a 7 pontos
Uso de baixo risco ou zona de risco I
8 a 15 pontos
Uso de risco ou zona de risco II
16 a 19 pontos
Uso nocivo ou zona de risco III
20 ou mais pontos
Provável dependência ou zona de risco IV


   Caso estes testes tenham revelado que você tem problemas com álcool, procure ajuda! O primeiro passo (que não é simples) é reconhecer esse fato. Existem serviços públicos especializados nesta problemática, mas conforme demonstrado logo abaixo, o comprometimento individual e o apoio familiar são cruciais para o sucesso do tratamento.

Desafios no tratamento da dependência 



  As questões do abuso de álcool e outras drogas vêm sendo um grande desafio enfrentado mundialmente, tanto no âmbito da saúde quanto no social. Nesse sentindo, o surgimento dos Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e drogas (CAPS ad), foram um progresso para o cuidado em saúde mental dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil. Este é um serviço que funciona 24 h  e é voltado para o cuidado de pessoas que enfrentam esta problemática. Caracterizam-se como articuladores estratégicos para a formação de uma rede integral de saúde mental no país. Segundo informações do próprio link disponibilizado acima, oferecem atendimento à população, realizam o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. Os CAPS também atendem aos usuários em seus momentos de crise, podendo oferecer acolhimento noturno por um período curto de dias.

  A dependência de drogas lícitas e ilícitas é influenciada por uma variedade de fatores, sendo assim, compreende-se que essa condição não tem um tratamento único e adequado para todos os tipos de drogas, havendo necessidade de uma combinação coerente entre ambiente, intervenções e serviços que sejam específicos para cada necessidade. Dessa forma, a terapia farmacológica é uma das vertentes de tratamento adotadas nestes centros. 

  Considerando as dificuldades inerentes a este contexto, a acadêmica do curso de Farmácia, Nicole Fernandes de Lima, orientada pela Prof. Carla Gonçalves, avaliou o nível de conhecimento dos usuários atendidos no CAPS ad de Passo Fundo, RS, sobre sua terapia medicamentosa. Foram entrevistados 40 usuários atendidos nesse serviço, 100% deles em tratamento com medicamentos. Destes, 67,5% relataram manter uso regular de substancias psicoativas, evidenciando uma situação de risco. As substâncias psicoativas mais utilizada foram o álcool (82,5%) e o tabaco (45%). Em terceiro lugar aparece o crack (22,5%), seguido pela cocaína (10%) e o por último a maconha (7,5%). O abandono do tratamento foi encontrado em cerca de metade dos entrevistados e 75% não tem adesão ao tratamento. Quanto ao conhecimento sobre sua terapia, 85% apresentaram um conhecimento classificado entre "regular" e "bom".

   Sendo assim, foi possível perceber a dificuldade de o tratamento ser realmente efetivo e eficaz, pois apesar de os usuários terem um serviço especializado disponível, o acesso ao medicamento ser facilitado e haver orientação sobre a terapia medicamentosa associada às outras vertentes de terapia, percebe-se que o uso da substância continua, o tratamento não é realizado da maneira correta e o abandono do tratamento é frequente.
   
  Por isso, finalizo este post com a seguinte questão: de que forma poderíamos melhorar a efetividade e a eficácia do tratamento para dependência?

Colaboraram para este post: farmacêutica Marina Pelicioli e acadêmica de Farmácia Nicole Fernandes de Lima. 
  

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Potencial antibiótico a partir do veneno da Jararaca

  Segundo a Organização Mundial da Saúde, infecções causadas por bactérias ainda ocupam o topo da lista de causa de morte. Elas podem ser combatidas com antibióticos. Porém, as bactérias possuem uma grande capacidade de se adaptar aos medicamentos disponíveis, tornando-se resistentes a eles.


 Como surgem as chamadas "superbactérias". Ilustração: https://eco4u.wordpress.com/2011/02/24/uso-indiscriminado-de-medicamentos-oms-alerta-sobre-o-perigo-das-superbacterias/arte_superbacteria-2/

 Existem vários pesquisadores dedicados a descoberta de novos antibióticos, mas estes estudos levam tempo. Recentemente, tivemos a boa notícia da descoberta de um novo composto antibiótico, a teixobactina, que funcionou contra as "superbactérias" em modelos animais e in vitro. Se este potencial for confirmado em humanos, estaremos diante de uma nova classe de medicamentos, com compostos isolados a partir de bactérias presentes no solo.  A notícia foi recebida com muito entusiasmo pois há muitos anos uma nova classe de antibióticos não era descoberta. Mais detalhes sobre a teixobactina, aqui:


  Bom, mas por aqui também temos boas notícias! Durante o último ano, o agora farmacêutico Lucas Henrique Cendron, no âmbito do seu Trabalho de Conclusão do Curso de Farmácia, testou a atividade antibacteriana do veneno da jararaca (Bothrops jararaca). 

Esta é a serpente peçonhenta Bothrops jararaca. Ela pode ser reconhecida pela coloração marrom esverdeada, com desenhos na forma de “V” invertido em cor preta ou castanha escuro, cauda lisa. Em caso de dúvida, não se aproxime!

 Já haviam outros estudos que nos indicavam que este veneno era promissor contra bactérias, mas a grande novidade do Lucas é que no seu trabalho nós testamos o veneno contra 16 bactérias resistentes isoladas de pacientes internados em um hospital local, obtendo inibição no crescimento de todas elas quando incubadas com o veneno.

Como é feito este teste?
 Através de um antibiograma, como o da foto abaixo (foto do material suplementar do artigo do Lucas, link disponível abaixo).




 Aqui temos duas placas com um "tapete bacteriano".  Cada disco assinalado com letras ou números correspondem a um tipo de tratamento. C+ significa que o disco está impregnado com o antibiótico padrão, o tratamento atualmente considerado efetivo para esta bactéria. É o nosso controle positivo, que deverá funcionar, ou seja, deveremos ter inibição do crescimento da bactéria conforme pode ser observado nas duas placas pelo halo transparente ao redor do C+, que significa que nas proximidades do antibiótico as bactérias não cresceram). O C- é o controle negativo, para garantir que nosso teste está correto. Não deverá ocorrer inibição do crescimento da bactéria. SM é a nossa solução mais concentrada de veneno, e 1,2,3,4 e 5 representam diluições do veneno. Repare que na primeira placa, é possível observar inibição mesmo com a diluição 3. E na segunda placa, a solução mais concentrada do veneno (SM) e a solução diluída 1 apresentam um halo de inibição com maior diâmetro do que o tratamento padrão disponível. Isto significa que o veneno da jararaca apresenta potencial antibacteriano contra estas bactérias.

 Mais detalhes sobre este estudo bem como a discussão das suas limitações e perspectivas encontram-se disponíveis em:

http://www.scirp.org/journal/PaperInformation.aspx?paperID=52046#.VL8R7ivF9UU


 Também falamos um pouquinho sobre este trabalho no programa Universidade Aberta, da TV UPF: 



 Apesar dos resultados promissores do Lucas e de vários outros trabalhos, vale lembrar que uma bactéria pode tornar-se resistente em poucas horas. Já o desenvolvimento de um novo medicamento para combatê-la demora cerca de mais de 20 anos para ficar pronto. E muitas vezes, os compostos que eram promissores inicialmente se revelam inadequados em fases posteriores. Ou seja, as bactérias ainda estão em vantagem e a situação é preocupante!

 Então, o que você pode fazer para ajudar?

 Se você for estudante de farmácia e se interessou pelo assunto, pode me procurar para fazer iniciação científica neste projeto e assim, continuarmos com estas pesquisas.

 Mas, se você não é da área, mesmo assim, pode ajudar e muito!

Como? 

 Fazendo um uso racional dos antibióticos, que inclui:
- Não utilizar antibióticos quando não for necessário.
-Seguir a risca o horário e o regime de administração dos antibióticos, para não dar chance de selecionar bactérias resistentes. Ou seja, você deve tomar a sua medicação no horário combinado e deverá seguir tomando a medicação até o fim do tratamento. Mesmo que já se sinta melhor antes disso! E qualquer dúvida, recorra ao seu farmacêutico.

 Por que?

 Porque é o mau uso dos antibióticos que muitas vezes selecionam bactérias resistentes! Conscientize-se e ajude a conscientizar seus amigos e vizinhos. Pois você não está garantido se fizer certo e os outros não...